País do Futuro Precisa de Escolas de Futuro

Data da publicação 06/04/2016



“O Brasil é o país do futuro!” Qualquer pessoa já deve ter ouvido, pelo menos uma vez, essa frase. O que ela significa, que previsões traz ou que mantra esconde é algo que poucos conseguem explicar convincentemente.

 

Não custa lembrar que o Brasil, até a década de 60, era um país rural, com uma economia agrícola, com uma população pouco alfabetizada, com uma expectativa de vida que atualmente parece soar como brincadeira – de acordo com a Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a esperança de vida, na década de 1960, oscilava entre 48 anos e 51,64 anos; em 2014 esse indicador atingiu a média de 75,2 anos. Qual é o futuro do país? Uma população que viva mais, porém, não necessariamente, melhor?

 

Sintomaticamente, os locais onde as pessoas vivem mais apresentam índices de qualidade de vida melhores, também, de modo generalizado: em parte, isso se deve à redução de mortes por problemas cardiovasculares, em países de alta renda, e à redução da mortalidade infantil, em países de baixa renda (conforme o periódico The Lancet, de 10 de janeiro de 2015).

 

A melhoria da qualidade de vida, a erradicação de doenças, a redução da mortalidade infantil, o aumento da produção de recursos alimentares... não são obra do acaso – resultam de pesquisas, do desenvolvimento de tecnologias, do estabelecimento e expansão de uma educação voltada, também ela, para a inovação, a criatividade, a inclusão/promoção, a colaboração, o empreendedorismo. Sem descurar a criação de um ambiente que estimule a tolerância, a cidadania, a solidariedade, o cultivo de valores como integridade, justiça, ética.

 

Portanto, ao se falar de um futuro melhor para o país há, necessariamente, que se falar de uma educação melhor. Por conseguinte, escolas mais adequadas e aptas a incubarem um novo modelo de educação.

 

Mas, novo em que sentido? Não basta a novidade pela novidade, pelo modismo. Uma escola, por exemplo, instala um smartboard ou lousa digital. A razão? Ora, porque a outra escola instalou. Ou, ainda, quando recursos didáticos deixam de ser recursos e se tornam o centro da aula: um projetor multimídia que, se não funciona, não tem aula.

 

Os recursos, os avanços tecnológicos, uma escola nova e inovadora não se faz sem pessoas; sobretudo, sem pessoas que pensem de forma inovadora, desafiadora; desafiadoras, primeiramente, de si próprias, rompendo com suas amarras costumeiras.

 

E quais seriam essas escolas do futuro? Seriam possíveis, já, hoje?

 

Um dos modelos de escolas inovadoras, por certo, é Summerhill, fundada em 1921 pelo escocês Alexander Sutherland Neill (1883-1973). Essa escola inglesa se caracteriza pela ampla liberdade que confere à sua comunidade estudantil naquilo que se refere aos conteúdos a serem estudados e à ausência de avaliações tradicionais. Atualmente, Summerhill conta com cerca de 75 estudantes, com idade entre 5 e 17 anos. Summerhill, embora pioneira no modelo de uma educação democrática ou livre, não se livrou (sem trocadilhos) de críticas externas, sobretudo quanto à sua capacidade de preparar eficazmente para o mundo real.

 

Outro modelo seria a Escola da Ponte, iniciada em Portugal em 1976 pelo educador José Pacheco. Essa escola, que possui “desdobramentos” em outros países, também é centrada no estudante e na colaboração entre os integrantes da comunidade escolar.

 

Não há um currículo único, pronto, mas desenvolve-se o que se entende por um “currículo subjetivo”, baseado em interesses de cada estudante, em conformidade com um currículo objetivo, que estipula metas ou objetivos gerais. Eles indicam o horizonte, mas as trilhas para lá chegar ficam a critério de cada estudante, que solicita auxílio a “mentores” que julgam os mais capazes de acordo com a área de interesse.

 

No caso dos professores, eles adequam sua aula àquilo que for proposto pelos estudantes, incentivando a descoberta, a pesquisa, a colaboração, inclusive com atividades práticas e, mesmo, fora do ambiente escolar – em bibliotecas públicas, junto a profissionais ou familiares. Periodicamente, reuniões da comunidade educativa servem para planejar o encaminhamento dos trabalhos, discutir e corrigir rumos, avaliar o processo como um todo.

 

Summerhill e Escola da Ponte são lembradas, sempre que se fala em modelos de escolas inovadoras, cada qual segundo suas características peculiares – liberdade, autonomia de aprendizagem, colaboração, currículo flexível, integração com a comunidade...

 

Atualmente, uma proposta de escola que vem se destacando, sobretudo por sua conexão com o mundo tecnológico e com a capacitação profissional é a francesa 42; uma escola que foca o treinamento em tecnologia, especificamente, a programação.

 

Dirigida por Xavier Neil, que mantem financeiramente o projeto, a 42 funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Seu propósito é colocar no mercado, anualmente, 1000 talentos extremamente qualificados para programação de altíssimo nível. Para tanto, não tem currículo, não tem avaliações, não tem horários, não tem quaisquer taxas, não tem... professores. A metodologia é a chamada “peer 2 peer learning”, em que os iguais (os integrantes da escola) ensinam – ou auxiliam – os iguais.

 

A única exigência da 42 é que as pessoas sejam capazes de desenvolver programas e resolver desafios de programação cada vez mais complexos. Outra exigência é a idade: a escola só admite pessoas com idade entre 18 e 30 anos. Fora isso, não há exigência, sequer, do nível de escolaridade formal. O período de “curso” ou treino dura entre três e cinco anos. O ingresso se faz mediante um processo seletivo que pode comportar, na fase inicial, cerca de até 70 mil interessados; quantidade que é reduzida para quatro mil, após os testes feitos no próprio site da escola. Os quatro mil participam de um período de um mês de profunda imersão escolar – período após o qual são selecionados os mil que passarão os próximos anos se qualificando para o exercício de alta performance no mundo da Tecnologia da Informação e do qual sairão diretamente para a atuação no mercado.

 

Atualmente a ADETEC – Agência de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico vem discutindo junto aos seus diretores, consultores, empresários e associados um modelo transformacional de Educação Empreendedora e Inovadora. Acreditamos que somente com novos caminhos poderemos alcançar o nível de excelência de determinados projetos.

 

Seriam, esses, os únicos modelos de escolas do futuro que já estão por aí (algumas, no longínquo início do século passado)?

 

Democracia, colaboração, integração com profundos valores humanos e tecnologia. Um sonho ou dicas de uma possibilidade que bate à porta?

 

André Fassa (Presidente da ADETEC – Agência de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico de Lins e Região e Coordenador do Curso de Marketing da Unilins) e Leonides da Silva Justiniano – Consultor da ADETEC, ambos Professores Universitários e Empreendedores Digitais.

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